Pretas Visualidades – Mulambö e as conexões diaspóricas através da Arte.

A importância dada a imagem na sociedade de modo algum deve ser contestada. Tanto que antropólogos veem na imagem e em seu culto uma nova versão do Totemismo, e esta sempre teve uma correlação com a magia. Talvez esta seja a explicação pelo poder mágico dado a elas, enfatizado pelo surgimento dos meios de comunicação em massa. Com as novas mídias, e novas formas de propagação de uma imagem, é necessário pensar nos fins que as imagens foram utilizadas, e como a partir destas podem surgir narrativas alternativas.

Durante o século XX, com o surgimento e popularização do jornal, do cinema e da televisão, há uma mudança cultural no que se refere ao modus operandi do indivíduo. Há um complexo treinamento que propõe uma sensibilização e automatização do corpo com o intuito de adaptação do corpo pautada na experiência da metrópole, sincronizando-o a um mundo acelerado, gerando uma série de estímulos sensórios para a vida moderna.

Estes estímulos são fundamentais para a criação de duas categorias que catalisam uma estrutura até  então inédita da modernidade: o suspense e o espanto. Ambas se tornam estéticas populares pautadas no sensacionalismo da vida moderna, transformando radicalmente a noção de tempo e espaço inseridas nas imagens. Segundo Kracauer, o sensacionalismo deve-se ao empobrecimento de experiências da modernidade.

Estas mudanças de temporalidade aliado ao poder mágico da imagem foram muito bem aproveitadas para comunicação, separando a linguagem erudita da popular, sendo esta última diretamente interligada a comunicação de massa. Enquanto a interação social de uma linguagem erudita possuía o foco em um único canal, a linguagem popular promovia a comunicação intersemiótica, modificando a interação social e a interpretação da imagem sem desvincular com seus fatores socioeconômicos. A partir deste conceito, há uma coordenação e racionalização sistematicamente organizada para construir uma imagem, seja ela acerca de si, ou acerca dos ideais de uma nação. A Alemanha nazista pareceu entender muitíssimo bem tais mecanismos e utilizou os meios de comunicação para propagar a eugenia. Modelo este imitado por Getúlio Vargas, que criou a DIP, para então propagar o “espírito brasileiro”.

Este espírito seria a miscigenação, reverberando a imagem pautada pela elite brasileira acerca no negro brasileiro:

A imagem do negro foi bestializada, associada a atraso e degradação social. O bandido, o degenerado, o vagabundo, o sujo e o bruxo foram apenas alguns dos estereótipos vinculados aos ex-escravos. Foi assim que a identidade nacional, e consequentemente a imagem do negro, foi estrategicamente planejada pelas elites brasileiras. Este processo identitário demarcou diferenças entre os sujeitos da sociedade. Importante ressaltar que os estereótipos ainda estão, mesmo que subjetivamente e veladamente, presentes em nossa sociedade, por vezes transformando-se e adaptando-se.

(Winch, Escobar, p. 230)

Portanto, o sensacionalismo presente no contexto brasileiro auxilia a propagar o racismo a partir da transposição dos males sociais ao indivíduo preto, causando a estereotipização. Consequentemente, há a alteração da produção de subjetividade do indivíduo, remetendo sempre a um lugar no qual a sociedade deseja seu extermínio ou invisibilidade.

Novas Mídias e a Reontologização

Existem seis marcos da comunicação (oral, escrita, impressa, de massa, midiática e digital), no qual a humanidade passa por uma modificação complexa na malha cultural. Os meios de comunicação são sobrepostos, o que não interfere nas produções sociais, e devido a sua estrutura, ajudam a reorganizar as imagens por óticas político-sociais não convencionais. Portanto, as narrativas dadas a imagem em um determinado meio de comunicação se sobrepõe a outra, interagindo com a capacidade de diálogo das mídias para a reinterpretação imagética. Como concluir logo abaixo, a comunicação digital é essencial para  construção e reconstrução acerca da imagem do oprimido, como podemos analisar logo abaixo:

                      “…A mais atual revolução é aquela que permite milhões de pessoas com renda média possam se tornar produtores de suas próprias imagens, de suas próprias mensagens, de seus próprios sites na internet, enfim, que se tornem produtores culturais sem sair de casa. As máquinas interativas incorporaram e automatizaram as ferramentas pictóricas e as técnicas textuais e sonoras que foram desenvolvidas nos últimos dois mil anos.”

Sendo assim, a imagem criada com o intuito de invisibilizar o indivíduo, pode através do suspense e da sensacionalismo da vida moderna, se torna capaz de ressignificar este atributo e tecer críticas a própria estrutura da imagem. Sendo assim, o próprio processo criativo do artista é uma dupla solução de problemas: enquanto existe a manipulação técnica da imagem, existe a solução enquanto sua narrativa original. E neste contexto, inserimos o trabalho de Mulambö, artista visual que se propõe a ressignificar a imagem do preto na sociedade brasileira. Ao quebrar com os efeitos de choque da narrativas imagéticas, refaz através da manipulação gráfica das fotografias, interligando-as ao seu universo particular – e excluído pelas mídias tradicionais. Para além disso, disponibiliza virtualmente um catálogo chamado de “Partido dos Pinturas Negras” que faz uma alusão ao “Black Panthers” e ao movimento dos direitos civis da população preta norte americana, em forma de playlist na plataforma do Youtube (disponível em: https://www.youtube.com/playlist?list=PLaBaB4jZ_jREDOsWnXsldg8CIbonmBrAm), uma série de produções de artistas pretos da diáspora e do continente africano. Sendo assim, o artista não é somente um artista, mas um catalisador social que visa a solução de um problema na sociedade brasileira transformando e politizando a si e a sua comunidade através da sua arte.

Portanto, as novas mídias são veículos essenciais para a reorganização de narrativas alternativas, ignoradas propositalmente pelas mídias tradicionais, ao reconectar artista e espectador através de estéticas dispostas a transpor os caminhos da ciência, tecnologia e arte.

Autoras: Tainá Dutra e Thayná Trindade

Referências Bibliográficas:

O termo “novas mídias”.

ANDRIOPOULOS. Televisão psíquica. In.: Aparições espectrais: o idealismo alemão, o

romance gótico e a mídia óptica. p. 143-161. Disponível em:

< https://drive.google.com/open?id=1FPo8WeJyWnbn62EI4RQJWGxqjl6z4TNs >.

SANTAELLA, Lucia. Por que as comunicações e as artes estão convergindo? São Paulo:

Paulus, 2005 < https://drive.google.com/open?id=0B8YwBAWQFmdRcG5la19TT0RLRGc >

SINGER, Ben. Modernidade, hiperestímulo e o início do sensacionalismo popular. In.:

CHARNEY, Leo R.; SCHWARTZ, Vanessa (org).

O cinema e a invenção da vida moderna.

TRAD Thompson, Regina. São Paulo: Cosac & Naif Edições, 2001. p. 95-123. <

https://drive.google.com/open?id=1iKiWVldejF988LUBgf4eUM51izVkZT5_ >

Placas vermelhas e pretas são um alerta, Mulambo. Disponível em <https://joaodamotta.wixsite.com/mulambo/sobre?fbclid=IwAR0BGbNBOkjaG0wDOW5-SyD5Ws_2Q3iIc8WMo4i7Zw0e0k6X9TS5P_-k8WU> Acesso em: 15 abr de 2019.

Mulambo. Disponível em : < https://web.facebook.com/um.mulambo/photos/a.681640008651334/1008356502646348/?type=3&theater > Acesso em 15 abr de 2019.

5 comentários sobre “ Pretas Visualidades – Mulambö e as conexões diaspóricas através da Arte.

  1. Olá! Gostei muito do trabalho sobre Novas Mídias (meu tema foi o mesmo) e gostaria de perguntar como foi o processo de pesquisa metodológica até chegar ao artista Mulambö e se vocês já o conheciam antes de fazer o trabalho.

    Curtido por 3 pessoas

    1. Desde o início nos propusemos a pensar os textos a partir de uma perspectiva racial, como fazemos em outras disciplinas. Como o nosso curso não aborda de maneira devida produções de arte fora do circuito eurocentrico, fazemos nós esse trabalho de valorização desses artistas, das produções de arte e dos teóricos que buscamos fora do curso.
      Existem artistas pretos que trabalham (e trabalharam) com inumeras possibilidades de criação, em varios tipos de produção em diversos movimentos,desde os mais antigos ate a contemporaneidade. Logo, cabe a nós fazer essa caça e fazer o minimo possivel para apresentar outras narrativas.

      Curtido por 2 pessoas

  2. Meninas, achei o trabalho de vocês potente e incrível demais. Principalmente pensando no contexto de um curso que propõe o olhar pra arte europeia durante sete períodos e coloca apenas uma matéria que traga discussões de arte africana e questões raciais. O Mulambö tem um trabalho incrível e achei interessante como vocês articularam os trabalhos dele dentro do contexto dos textos do tema, pensando em refazer um olhar, do próprio povo contar sua história. Adorei a legenda de um dos trabalhos também “sobre foto de negra que não sei o nome então não vou falar o nome do gringo que tirou também”.

    Curtido por 3 pessoas

  3. Muito potentes as imagens vistas nos trabalhos do artista Mulambö, que brilhantemente se apropriou de imagens e reorganizou narrativas. Confesso até então meu desconhecimento do artista, porém a aula motivou-me a conhecer seus trabalhos. Mulambö utilizando novas mídias mostra a arte como processo questionador e conscientizador.

    Curtido por 2 pessoas

  4. Pra que as novas narrativas venham vamos ter que arregaçar as mangas. O trabalho de vocês é urgente pois esse é o momento de hackear a narrativa hegemônica e como disse Rosana Paulino – olhando nos nossos olhos – , precisamos documentar a produção dos nossos. O Mulambö também me lembra a Rosana Paulino no quesito “mudar suas chaves de leitura das imagens”, já que não podemos simplesmente deletá-las da história da arte.

    Curtido por 2 pessoas

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